domingo, 1 de maio de 2011

A Outra Doutrina

Mais uma semana, mais um chorrilo de opiniões, visões, programas e manifestos. Nada muda. Andamos nisto à meses a fio. Leio porque gosto e me interesso, mas confesso que o meu copo transbordou. Transbordou porque há um limite para aquilo que se consegue ouvir e absorver, para aquilo que se consegue ler e concordar ou discordar.

Está instalado no nosso país uma cultura triste e rasca na qual não me reconheço. Um sentido de falsa riqueza que começa desde de tenra idade e é transversal a classes económico-sociais. Toda a gente tem uma opinião que não se refreia de publicar, partilhar ou vociferar nas rádios, televisões ou redes sociais. Toda a gente tem uma opinião mas se esquece que mais que opinar, apontar caminhos ou soluções é preciso fazer acontecer. Fazem-se congressos, aplaudem-se os líderes, criticam-se os opositores, são delineadas estratégias e todos saem com largos sorrisos sem se cansarem de afirmar “que desta é que é”. No entanto a Mensagem de Fernando Pessoa continua hoje mais actual que nunca e “falta cumprir-se Portugal”.

Nós somos pobres. Não de espírito, não de história, não de cultura, não. Nós somos pobres daquilo que realmente interessa. Estamos tesos. Não temos dinheiro para mandar cantar um cego. No entanto, continuamos a culpar os Governos, os Presidentes, os Partidos por aquilo que é tão básico e que nos esquecemos: se não trabalharmos nunca vamos ser ricos. Nunca.
O ideal capitalista que tomou conta da nossa sociedade e que se agravou drasticamente com a entrada na zona Euro, ajudado por um Primeiro-Ministro irresponsável, incompetente, irrealista, plantou no fundo das nossas cabeças a ideia de que para lá chegarmos não precisamos de trabalhar. E revezam-se as teorias que explicam onde e como falhamos, de como o peso do Estado é incomportável para uma Economia que se quer moderna e a crescer, ou de como o tecido empresarial se deteriora a cada dia que passa mas ainda não vi ninguém a falar abertamente disto: em Portugal, a generalidade da população não quer trabalhar. E é por aí que tem de começar a mudança.

Que merda de democracia é esta em que estamos limitados a escolher entre o Zé e o Pedro que se agarram cada um aos seus ideais como eu me agarrava à chucha em criança?
É para isto que se fez Abril?
É isto que a podre geração de políticos geriatricos se orgulha?
É isto que os “Pais da democracia” nos deixaram?

Perdoem-me a heresia mas se é para isto, preferia que esta democracia tivesse morrido à nascença.

A solução é só uma: trabalhar. E trabalhar mais. E continuar a trabalhar. É preciso ter capacidade de sofrimento, porque nós somos pobres e pobre sofre. Mas a capacidade de sofrimento tem de ser transversal. Não podem haver políticos ou deputados de profissão. A política deve de ser tão só vista como uma missão. Quem muito grita e barafusta nada mais faz que ventilar as suas frustrações pela latente falta de competência, de humildade ou de carisma.
Este país perdeu-se quando uma meia dúzia, ricos à custa de uma cartilha keynesiana, quis passar a impressão que para se ser rico não se precisa de trabalhar. É preciso alguém que diga aos Portugueses que a grande maioria de nós nunca vai chegar a rico. Deve sempre ambicionar algo melhor, mas é essencial ter objectivos calendarizáveis, tangíveis que sejam passiveis de se atingir com trabalho.

Nós já fomos grandes e temos tudo para ser os maiores. Temos grandes empresas, jovens cheios de vontade de crescer, de aprender, temos grandes desportistas, escritores, arquitectos, cientistas, investigadores, inventores mas continuamos pobres.

Porquê?

2 comentários:

Nervos em frangalhos disse...

E quem tem vontade de trabalhar, que nem ambiciona enriquecer, só quer viver tranquila, tem capacidade de sacrifício e não tem oportunidades? É fodido. Gostei de ler.

Argonauta disse...

É. É muito fodido. Mas se a mensagem passasse e a dinâmica de trabalho se instalasse, em vez de esperar que caia do céu, as oportunidades iam surgir. Mas não é sentados e a mandar postas de pescada da assembleia ou da televisão que o problema se vai resolver...